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De onde vem o que eu como: nem toda cenoura tem a cor laranja

A cenoura tem se tornado um assunto polêmico entre os consumidores e virou até meme devido aos preços altos. Você sabia que o que consumimos é, na verdade, a raiz da planta? O cultivo existe em várias tonalidades: branca, amarela, roxa, vermelha, laranja e até preta.

A mais popular no dia a dia do brasileiro, a laranja, é uma evolução do legume que era branco em sua origem.

A primeira cenoura do mundo teria surgido no Afeganistão. A princípio, ninguém ligava muito para a raiz, que é o que comemos.

Você já viu semente de cenoura? Ela não se encontra na raiz, mas sim na flor.

As sementes que eram as protagonistas do cultivo, pois têm propriedades medicinais, explica o pesquisador Agnaldo de Carvalho, responsável pelo melhoramento genético de cenoura na Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) Hortaliças.

Elas são ricas em vitaminas, minerais, antioxidantes e ácidos graxos. Seu óleo ajuda a combater os radicais livres, evitando o envelhecimento precoce, tem ação anti-inflamatória, cicatrizante e hidratante, diz a nutricionista Adriane Marcom.

Normalmente, ele é usado em aromaterapia e na saúde dos cabelos, combatendo as caspas, por exemplo.

Cenoura como patriotismo

Como alimento, a cenoura tem cerca de 5 séculos, aponta Carvalho. A primeira de todas era a branca. O pesquisador a descreve como bem diferente do que encontramos nos supermercados hoje em dia: “Era uma raiz toda retorcida, lenhosa e com o sabor muito ruim”.

No decorrer dos séculos, a cenoura foi se espalhando pelo mundo e ganhando cores diferentes. Na China e na Índia, surgiu a vermelha, na Europa, a amarela e a roxa. Existem também algumas de tons escuros, classificadas como pretas.

A famosa laranja teria se originado na Holanda, conta o pesquisador da Embrapa. Ela é uma evolução da cenoura amarela: “Provavelmente surgiram tipos um pouco mais alaranjados e os produtores foram selecionando esses e foram consultando essa cor até surgir o tipo laranja intenso”.

Há ainda a possibilidade de os produtores terem focado em tornar a cenoura mais alaranjada por questões políticas.

No século 16, Guilherme I de Orange-Nassau assumiu o trono holandês. Ele foi um impulsionador do movimento de independência dos Países Baixos e deu início à dinastia de Orange, palavra que, traduzida ao português, significa laranja.

“Por uma questão nacionalista, eles acabaram adotando em larga escala as cenouras laranjas e isso prevaleceu e de fato tomou conta, é a principal em termos de cenoura”, diz Carvalho.

Contudo, existe uma versão menos poética sobre o motivo da laranja ter ganhado destaque: os consumidores podem ter apenas começado a considerar o sabor dela mais agradável do que o das demais, além de terem se agradado pelo pigmento não se dissolver durante o cozimento, aponta o pesquisador.

Como a cor é selecionada

A seleção de cores é possível por causa da capacidade genética de mudança da cenoura. De acordo com Carvalho, ela se assemelha, nesse aspecto, ao ser humano.

Então, para obter a cor laranja, os agricultores tiveram que selecionar as cenouras amarelas de tons mais intensos e cruzá-las com outras semelhantes.

O cruzamento entre cenouras acontece por meio da polinização. Ou seja, o pólen da flor de um pé deve ser levado para a flor de outro pé. Só então as sementes são produzidas.

“Se você fizer isso por décadas ou centenas de anos, você consegue sair de um amarelo claro e chegar no tom alaranjado, que é mais ou menos isso que aconteceu”, explica Carvalho.

Esse sistema é válido para qualquer cor, inclusive sendo possível usar tons mais claros até chegar na cenoura branca novamente.

Cenoura no Brasil

O legume foi trazido ao Brasil no século 17, diz Carvalho, introduzido pelos portugueses no Rio Grande do Sul, estado com o clima mais próximo ao europeu.

Uma das dificuldades enfrentadas aqui, principalmente no ramo das sementes, é a necessidade do clima frio para o florescimento.

Este problema não acontece com a produção da raiz para consumo, pois ela é colhida antes do florescimento, precisando apenas de 22°C. Isso é possível porque os agricultores compram as sementes para novos plantios e não, necessariamente, precisam seguir todas as etapas da planta para obtê-las.

A cenoura laranja se dá melhor no nosso clima tropical, as outras cores precisam de mais frio.

Existem dois tipos de cenouras em termos de temperatura: a de inverno, tradicional da Europa, e a de verão, fruto de cultivares em que a seleção genética foi priorizando a resistência ao calor.

As cenouras de verão são indicadas para a semeadura nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste entre outubro e março. Elas são mais tolerantes aos problemas relacionados à chuva, calor e exigem menos frio para a produção de sementes.

Vem aí a cenoura roxa

Carvalho, responsável pelo melhoramento genético de cenoura na Embrapa, está desenvolvendo uma pesquisa para criar uma cenoura roxa de verão, que possa ser cultivada no clima brasileiro.

“Está bastante difícil porque o pigmento roxo depende bastante de condições climáticas, parece que o período de verão desfavorece essa fixação do pigmento roxo”, explica.

Ele conta que o legume dessa cor já foi bastante comercializado e está voltando a ser com sementes de origem dos Estados Unidos.

Para obter as sementes para essa e outras pesquisas, inclusive da cor laranja, ele usa câmaras frias, onde os cultivos ficam por 45 dias em cerca de 4°C, induzindo o florescimento.

A princípio, a pesquisa englobava também as cenouras das cores branca, amarela e vermelha, além da roxa, mas o estudo não deu muito certo com as demais.

Isso porque esses tipos da raiz são mais adaptados para plantios de inverno, ou seja, para as condições de Brasília – local onde o estudo é feito – a semeadura deveria ser entre março e setembro. Contudo ela foi feita em novembro.

Por este motivo, só foi possível obter raízes das cenouras branca e roxa. Esta última foi considerada mais visualmente atrativa por Carvalho, que decidiu focar nessa tonalidade.

Mandioquinha não é cenoura

Muita gente sabe que existe a cenoura amarela e acha que ela é a mesma coisa que a mandioquinha, mas isso não é verdade, diz Carvalho.

A confusão acontece porque os dois cultivos são fisicamente parecidos e pertencem a mesma família, a Apiaceae. Mas, tirando isso, são completamente diferentes.

Enquanto a cenoura surge no Afeganistão, a mandioquinha tem origem nos Andes, principalmente no Peru e na Colômbia. Além disso, essa última não se reproduz por semente, mas por reprodução vegetativa, usando partes do cultivo, como a coroa, para o plantio.

Carvalho comenta nunca ter visto a cenoura amarela no mercado brasileiro.

Fonte: G1