UM NOVO CICLO DE VALOR À CREDIBILIDADE

Por: Rafael Menin Soriano

O mundo que surgirá da crise global provocada pela pandemia da COVID-19 provavelmente estará centrado no resgate da confiança como princípio indissociável das empresas, marcas, governos e organizações.

Guardadas as medidas necessárias para manter a produção e a prestação de serviços com qualidade, estamos todos desafiados a estabelecer práticas marcadas por doses ainda maiores de colaboração, responsabilidade e transparência.
As pessoas – nossos consumidores e parceiros de negócios – exigem esse comprometimento e, daqui para frente, estarão ainda mais ansiosas e vigilantes para que seus fornecedores atendam suas expectativas.

A tendência está evidenciada em pesquisa feita pela Edelman em 12 países, incluindo o Brasil, neste período de pandemia. O estudo mostra que a maioria dos consumidores (62%) espera que as marcas desempenhem um papel decisivo no combate à crise.
Os entrevistados acreditam que as empresas estão respondendo com mais rapidez e eficácia do que os governos, mas 71% dizem que perderão a confiança nas marcas caso percebam que suas políticas de lucro estejam acima das pessoas.
A mensagem é clara e não pode ser ignorada. Precisamos fazer mais para atender o que o público exige.
Não podemos, porém, parar por completo com o objetivo de traçar estratégias futuras.
No caso da mídia, está a nosso favor o fato de que temos o conhecimento necessário para tanto.
Precisamos nos pautar pelo nosso know-how, fazer uso aprofundado de nossa experiência, combater a desinformação e aplicar o bom senso.
No segmento das empresas de jornalismo profissional, estabelecemos um critério na tarefa de enfrentar o desafio: fazer nosso trabalho garantindo o direito da população de se informar de forma livre e, ao mesmo tempo, preservar a saúde e o bem-estar dos profissionais e do público.

O espírito solidário e colaborativo tem permitido uma cobertura jornalística impecável sobre os fatos e consequências relacionados à COVID-19.
Enquanto esvaziamos as redações, mantendo apenas os profissionais essenciais à manutenção da notícia, investimos em nosso jornalismo, na inovação e na responsabilidade social. É o caso do fornecimento de conteúdo gratuito sobre a pandemia a todos os leitores por parte das organizações de notícias.

Anunciantes têm seguido o mesmo procedimento e, ao lado de suas agências de publicidade, comunicam com empatia e responsabilidade, além de contribuírem de forma efetiva no fornecimento, gratuito ou a preços reduzidos, de equipamentos e produtos utilizados no combate ao novo Coronavírus.
À medida que a crise de saúde avançava – e, com ela, uma enxurrada de desinformação espalhada em redes sociais e aplicativos de mensagens – as pessoas renovaram sua confiança no jornalismo, pois sabem que se trata de uma atividade comprometida com a verdade.

Neste momento, no Brasil, programas jornalísticos televisivos (61%) e jornais impressos (56%) lideram o índice de confiança sobre o COVID-19, segundo pesquisa do Datafolha, seguidos por programas noticiosos de rádio (50%) e sites de notícias (38%).
A certeza de que é preciso garantir informação segura em um período de tantas dúvidas tem feito leitores, ouvintes e telespectadores procurarem cada vez mais seus veículos noticiosos favoritos.

Dados do Instituto Verificador de Comunicação (IVC) revelam de forma indiscutível a relevância do jornalismo para as sociedades.
A semana na qual o cotidiano dos brasileiros foi afetado pelo COVID-19, entre 22 e 28 de março, a audiência dos sites jornalísticos auditados pelo IVC cresceu 72% em relação à semana anterior, quando a pandemia ainda era um problema mais claro em outros países.

Tamanha credibilidade ganha ainda mais importância quando a associamos a outro dado, da pesquisa da Edelman, segundo o qual a maioria das pessoas (53%) espera que, na crise global, as empresas anunciantes falem com seus clientes justamente por meio dos veículos de comunicação de maior credibilidade.

No entanto, não podemos nos esquecer dos desafios que a disrupção digital impôs às empresas jornalísticas há pelos menos uma década e, agora, do cruel paradoxo criado durante a pandemia: se a imprensa tem um papel essencial na frente de batalha contra o vírus, nunca foi tão necessário como agora e tem a confiança da população, a atividade jornalística também faz parte do grupo de setores mais afetados pelas dificuldades econômicas que acompanham a pandemia.

Vivemos um período obscuro e de medo insuflado pela incerteza sobre o futuro. No entanto, o caminho para a superação é, assim como ocorreu em outros momentos, a luz da ciência, do conhecimento, da verdade e da responsabilidade.

As empresas jornalísticas acreditam que, para enfrentar a pandemia e o que virá depois, o melhor caminho é fortalecer esse ciclo de valorização da credibilidade.
Esse esforço passa pelo exercício do jornalismo de alta qualidade, mas também por iniciativas que nos aproximem ainda mais dos leitores. É hora de conversar a fundo com nossa audiência e trabalhar duro para garantir às pessoas conteúdo ainda mais informativo, atraente e útil para quando a tempestade passar.

 

Rafael Menin Soriano
Presidente da ANER – Associação Nacional de Editores de Revistas