Terroir Amazônico

Por: Carolina Brazil

Foto: Renata Silva

Eu já começo esse texto fazendo uma pergunta: Você conhece a região com a maior biodiversidade do planeta?

O que te contaram sobre as pessoas que moram aqui? O que você sabe sobre a Amazônia? Que território é esse muito falado nos quatro cantos do mundo?
Me proponho aqui em ajudar a levantar alguns pontos para essa conversa.

Vamos falar primeiro de área, para contextualizar geograficamente.

A Amazônia, maior bioma do mundo abrange nove países (Paraguai, Bolívia, Peru, Equador, Colômbia, Venezuela, Guiana Francesa, Suriname e Brasil). Dados do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade apontam ainda que são cerca de 40 mil espécies de plantas, 300 espécies de mamíferos, 1,3 mil espécies de aves que habitam em florestas densas e abertas.

Mas se você puxar esse “Google Maps” aí vai ver que tem muito mais que isso.
Se pegarmos só a Amazônia Brasileira vamos encontrar uma imensidão de informações dessa localização geográfica no extremo Norte do país.

Inclusive, porque temos delimitado ainda, outro território invisível, denominado como Amazônia Legal. Essa composição envolve nove estados. O IBGE indica que essa região é composta por 52 municípios de Rondônia, 22 do Acre, 62 do Amazonas, 15 de Roraima, 144 do Pará, 16 do Amapá, 139 do Tocantins, 141 do Mato Grosso, e ainda, por 181 do Maranhão, sendo que 21 deles, estão parcialmente integrados à Amazônia Legal. O mesmo levantamento aponta uma superfície aproximada de 5.015.067,749 km², correspondente a cerca de 58,9% do território brasileiro.

Então, vamos aproximar ainda mais essa lupa?!

Em todos esses municípios vivem cerca de 25 milhões de pessoas. Em torno de 250 mil são indígenas de mais de 80 etnias e que representam mais de 50% da população indígena brasileira. Bastante né?! Afinal eles chegaram primeiro aqui, mas isso é uma outra história.

Mas acredito que tanta informação assim seja bem diferente de tudo que te contaram sobre a Amazônia, não é mesmo?!

E não para por aí, porque você deve estar se perguntando, e as outras 20 e tantos milhões de pessoas, o que fazem nesse território gigante e diverso? Bingo! Chegamos ao ponto crucial da nossa conversa por aqui. Falar de quem produz!

Mas pode produzir na Amazônia? Pode sim! A legislação ambiental do nosso país delimita “pesos e medidas” diferentes para quem tem áreas rurais aqui. Na regrinha 80-20, sendo 80% de preservação e 20% de áreas abertas, ou seja, sem cobertura com floresta, é permito o cultivo de várias espécies de animais e vegetais, além do extrativismo dos produtos da floresta.

Seguimos curiosos em aproximar ainda mais essa lente de aumento para espiar o que tanto tem no Terroir Amazônico. Trouxe essa palavrinha francesa que numa busca rápida na internet se apresentou assim: “na ampliação da geografia francesa, terroir é um conceito cultural e identitário, referente ao conjunto de terras exploradas por uma coletividade rural constituída por relações familiares, tradições comuns e laços de solidariedade.” Por isso, apresento pra vocês agora o mais recente “território” da região Amazônica a ter o reconhecimento mundial por conter essas características, além de muitas outras, e que fica em Rondônia. Um estado bem ao oeste do mapa do Brasil, que faz fronteira com a Bolívia e divisa com Mato Grosso, Amazonas e Acre. Não é Roraima, tá gente!?

É a única região do planeta Terra que tem um selo de Indicação Geográfica com Denominação de Origem para café Canéfora – Robustas Amazônicos das Matas de Rondônia. Cafeicultores de 15 municípios rondonienses fazem parte da primeira IG do estado, do Brasil e do mundo com essas características tão específicas. São trabalhadores rurais com base na agricultura familiar em pequenas propriedades plantando, colhendo, secando e torrando grãos especialmente maduros. Famílias de imigrantes, mulheres, indígenas e toda a cadeia que envolve a cafeicultura. É daqui que sai mais de 90% do café produzido na Amazônia. E isso já garante o título de maior produtor da região Norte e o segundo maior produtor de canéfora do Brasil. Os Robustas Amazônicos cultivados aqui são a junção de duas variedades de canéfora: conilon capixaba e robustas do Instituto Agronômico de Campinas trazidos pela Embrapa. Isso tudo lá pela década de 1970, época de um, dos vários processos de colonização da região.

A integração das lavouras de café com a biodiversidade das florestas ajudou no surgimento dessa nova variedade: Robusta Amazônico. As abelhas têm um papel importante porque por meio da polinização cruzada, hora numa planta, hora em outra foi sendo feita a disseminação do pólen. Produtores e pesquisadores identificaram plantas mais resistentes e “robustas” às condições de solos, clima, temperatura e altitude das Matas de Rondônia. As melhores plantas desse cruzamento foram clonadas e deram origem a seleção genética, exclusivamente encontrada por aqui.

Bom, se o objetivo aqui era te contar sobre a Amazônia acredito ter ido muito mais além. Quanta coisa cabe aqui nesse espaço em branco, hein?! Se esse conteúdo deixou um cheirinho de café passado na hora, acredito que seja prudente eu voltar por aqui pra gente continuar com o rumo dessa prosa.

*Carolina Brazil é jornalista, editora-chefe e apresentadora do Rondônia Rural e faz parte da coordenação do Movimento Agro Mulheres Rondônia.