PÓS COVID-19, DA INCERTEZA AO RISCO CALCULADO, INCORPORANDO OS MEDOS E APRENDIZADOS DA PANDEMIA À REALIDADE DO AGRONEGÓCIO

Por: Eduardo Eugênio Spers

Conhecemos muitas das grandes tragédias e pandemias com este elevado grau de mortes pela história. Ninguém poderia prever que esta chegaria com tamanha força e amplitude. Esta é a diferença entre a incerteza e o risco. O que nos intriga é como uma pandemia consegue impactar tão igualmente, fortemente e globalmente, sendo que nosso padrão de conhecimento tecnológico avançou muito a ponto de planejarmos pisar em Marte daqui a poucos anos.
O fato é que, porque não previmos, não focamos no desenvolvimento de tecnologias para conter este tipo de pandemia porque foi uma incerteza e não um risco calculado.

O risco de algo acontecer é conhecido e por isso nos precavemos, mas a incerteza, como a de hoje e a que aconteceu, por exemplo, em 11 de setembro de 2000, com os ataques terroristas às Torres Gêmeas nos EUA, nos deixam inseguros, com medo e ansiosos.
O homem evolui pensando em maneiras de controlar seu futuro e os acontecimentos, como os de agora, geram muitas dúvidas. O risco está presente no agronegócio e o setor sabe muito bem como lidar com ele. Enfrentar os riscos do clima e do mercado faz parte do dia a dia do produtor.
O que eu entendo ser o grande desafio pós COVID-19 será encontrar maneiras de lidar com as sequelas desta incerteza e incorporar formas de superá-las. Este será um dos focos do agronegócio daqui em diante.

Quando passamos por algo difícil, em geral são três perguntas que surgem. Primeiro, por que eu (ou nós)? A segunda, qual é a causa (ou quem são os culpados de tudo isso)? Por fim, a terceira, qual é a solução (ou como sairemos disso)?

Talvez a primeira nos faça refletir sobre o motivo de sermos a geração escolhida, ou ainda, em uma reflexão e em um questionamento mais pessoal e até religioso e espiritual, o porque de sermos exatamente nós os que devem passar por este desafio. Esta primeira questão pode ser feita por todos, independe do setor, agronegócio ou não, ela atinge todos nós enquanto seres humanos e organismos pensantes. Atinge pobres e ricos. É filosófica. Nos faz repensar sobre o que somos e nos estimula a pensar profundamente sobre nossa existência e missão aqui na terra. Não seremos os mesmos depois que que esta pandemia passar. Talvez esta seja a principal marca pós COVID-19.
Mudar valores muda a forma como nós nos definimos e nos relacionamos com a nossa família, com os nossos amigos e com o nosso negócio. Todos os envolvidos e os não envolvidos no agronegócio não vão enxergá-lo da mesma forma. Este clima de mudança de pensamentos é uma oportunidade ímpar para o setor se comunicar e se posicionar de forma diferente para com o público urbano, principalmente.

A segunda questão pode ser respondida de uma maneira mais técnica e científica, mas que na prática não muda muito o que precisamos fazer para superar da melhor forma esta pandemia. O que mais escuto insistentemente sobre as medidas de isolamento é que ela é fundamentada em aspectos técnicos e científicos.
Algo que sempre foi deixado de lado pela população ao culpar o agronegócio indiscriminadamente por todo e qualquer dano ambiental, social e econômico, sem contar as “fake news” sobre os sistemas de produção.
Minha convicção é que a população aprendeu que precisa escutar os especialistas, os argumentos racionais e menos os emocionais, baseados em inferências, mitos e crenças sem fundamentos. Em vez de acharmos um culpado para esta crise, estamos buscando argumentos que nos permitem avançar com segurança para a terceira questão. A agricultura gera externalidades que nem sempre são positivas, mas que são necessárias para a produção de alimentos, fibras e combustíveis renováveis e por isso suas atividades precisam ser avaliadas de forma racional e equilibrada.
Vamos aproveitar este momento para comunicar mais e melhor os aspectos técnicos e científicos que envolvem as atividades relacionadas ao agronegócio para a população em geral.

Que tal pularmos as duas primeiras perguntas e nos concentrarmos na terceira, no futuro, no que nos espera e no que podemos fazer para sairmos bem desta turbulência e deixarmos o agronegócio mais fortalecido, até porque no momento não temos outra alternativa, a não ser esperar o pior passar.
Nesta perspectiva, outro aprendizado que podemos incorporar ao agronegócio é exatamente esta visão de futuro, em um setor em que o curto prazo prevalece. Estamos observando que o impacto no agronegócio tem sido bem diversificado e que o setor continua atuando muito bem no seu papel principal de abastecer com produtos essenciais a população.
Minha proposta é a de que devemos ir além das análises dos impactos de curto prazo em setores específicos do agro. Este momento de dificuldade gera um impulso para sairmos da nossa zona de conforto.
É certo que iremos utilizar ainda mais a tecnologia, mas podemos fazer isso de forma pró-ativa. Vamos mudar a pergunta. Não mais como será o agronegócio pós-pandemia, mas como queremos que o agronegócio seja pós o COVID-19!

 

 

Eduardo Eugênio Spers
Professor Titular USP/Esalq
Pesquisador de Marketing no Departamento de Economia, Administração e Sociologia da USP/Esalq e coordenador do Grupo de Pesquisa e Extensão MarkEsalq