O valor da água para o agronegócio

Por: Lineu Neiva Rodrigues

Nós, brasileiros, temos o hábito de admirar empreendimentos que extrapolem expectativas, especialmente se forem internacionais. É assim com os cereais, hortaliças e frutas que brotam em profusão Deserto do Neguev, em Israel. Também não é para menos: trata-se de um exemplo de criatividade, ousadia e uso de tecnologia, dignos de integrarem qualquer lista de maravilhas do mundo moderno.

Há, porém, vários exemplos de sucesso bem brasileiros e bem próximos de nós. O agronegócio no Oeste da Bahia é um desses exemplos. Responsável por 25% do PIB do estado, a agricultura naquela região é um verdadeiro celeiro de ideias e soluções inteligentes para produzir alimento com sustentabilidade. As tecnologias empregadas ali sintetizam o que tem de melhor no mundo, contribuindo para produzir alimento com o menor uso de recursos hídricos.

Dois elementos são fundamentais para a sobrevivência do ser humano: água e alimento.

No último dia 22 de março foi celebrado o Dia Mundial da Água. É uma oportunidade para se pensar a importância desse recurso para a vida e para o desenvolvimento econômico e social. É fundamental adotar estratégias que considerem os usos múltiplos da água. Segurança hídrica e alimentar devem fazer parte de qualquer política de estado que vise ao desenvolvimento e ao bem-estar de sua população.

Nesse contexto, é importante aprender com os erros do passado e planejar um futuro melhor, que consiste necessariamente em integrar de forma efetiva e estratégica as políticas de segurança hídrica e alimentar de forma a trazer estabilidade na produção de alimentos. Os efeitos das mudanças climáticas, aumentando as incertezas das chuvas, aumenta, o, risco, de comprometer a produção de alimentos por estresse hídrico. É nesse sentido que a irrigação se apresenta como uma tecnologia essencial para se alcançar a segurança alimentar.

No contexto da gestão de recursos hídricos, é importante entender a água e sua função nas diferentes regiões (territórios). Algumas regiões, como o Oeste da Bahia que são reconhecidas por produzir alimento de forma sustentável, só são economicamente viáveis devido à existência da agricultura irrigada. O agrocerrado, que inclui a bacia hidrográfica do médio São Francisco e Oeste da Bahia, se tornou sinônimo de segurança alimentar, apresentando grande desenvolvimento de tecnologia, embasamento científico e de melhoria nos indicadores de IDH. Os investimentos em irrigação cresceram em 50%, sem que houvesse perdas ou danos aos recursos disponíveis.

Os produtores do Oeste Baiano entendem que o uso da água para a irrigação é estratégico ao desenvolvimento sustentável e à geração de emprego e renda na região, contribuindo para a redução da pobreza e da desigualdade de renda. Mais que isso, eles reconhecem que a eficiência no trato da terra e das lavouras caracterizam a excelência em termos de sustentabilidade e produtividade, os quais têm sido registrados nas últimas duas décadas, um verdadeiro “case” de sucesso. Graças a isso, ao modelo de produção adotado no cerrado, Brasil deixou de ser o segundo maior importador mundial de algodão, nos anos de 1980 e 1990, para tornar-se, nesse século, o segundo maior exportador mundial, atrás apenas do Estados Unidos, que já nos enxergam nitidamente no retrovisor.

É fácil entender que a água é um ativo imprescindível para a agricultura, seja ela das chuvas, dos rios, ou dos aquíferos, mas, sobretudo, é preciso que o agricultor esteja consciente de que deve seguir a legislação específica quanto ao uso da água e que sem essa consciência, a agricultura irrigada não é viável, e que ainda se deve avançar mais e em bases seguras, garantindo crescimento econômico e sustentabilidade.

Existem, no Oeste da Bahia, vários exemplos de programas de cuidado com a água, um dos melhores exemplos é o Programa de Identificação, Proteção e Recuperação de Nascentes, empreendido pela Associação Baiana dos Produtores de Algodão (Abapa) pela Associação de Agricultores e Irrigantes da Bahia (Aiba), com as participações de nove municípios da região e apoio do Instituto Brasileiro do Algodão (IBA). Resultado: os produtores conquistaram o Prêmio ANA 2020, promovido pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA). Foi a primeira vez em que o Oeste Baiano foi laureado com a premiação.

Esse prêmio é um motivo de orgulho para o irrigante que se traduz em um incentivo a mais trilhar esse caminho em prol da produção com sustentabilidade, preservação e igualdade social, beneficiando, assim, toda a sociedade e ratificando o Brasil como importante player mundial do agronegócio. O celeiro do mundo.

É fundamental utilizar bem os recursos hídricos para criar mais valor e bem-estar para a sociedade. Isso não significa, é claro, incentivar a cultura do desperdício de água.  Com uma gestão de recursos hídricos competente, é possível trazer segurança hídrica e atender a todos os usos e usuários sem comprometer a disponibilidade. Água é sinônimo de dialogar, de compartilhar e de integrar.  Não é geradora de conflitos, mas sim de oportunidade para produzir alimento e desenvolvimento. É esse exemplo que se tem visto na agricultura do oeste da Bahia.

*Lineu Neiva Rodrigues é pesquisador de recursos hídricos da Embrapa Cerrados

Fonte: Artigo originalmente publicado na Veja