MUITA CALMA NESTA HORA! O MUNDO VAI MUDAR, MAS NEM TANTO.

Por: Roberto Denuzzo

Nestes dias de confinamento causado pela pandemia, o nível de leitura das pessoas em casa tem aumentado, mesmo que a contragosto.
E, infelizmente, o que as pessoas têm lido sobre o futuro pós pandemia tem sido de doer. São coisas do tipo:

  • O mundo nunca mais será o mesmo!
  • O fim dos restaurantes, as pessoas só vão se alimentar em casa.
  • O e-commerce vai dominar o varejo tradicional.
  • As empresas e suas marcas serão socialmente responsáveis.
  • Os políticos estarão mais preocupados com o povo.

Não me arrisco a fazer previsões, mas, sim, a analisar estes temas um pouco mais profundamente do que tem sido feito. Afinal, a superficialidade das análises atuais via Tweets prejudica a reflexão.
Vamos a cada uma delas.

  1. O MUNDO NUNCA MAIS SERÁ O MESMO

Claro, existirão mudanças comportamentais e, como exemplo, acho que as pessoas vão lavar mais as mãos.

Quem passou pelo racionamento de energia de 2001, sabe que pelo menos 10% de economia de energia ficaram no comportamento residual das pessoas ao se focarem no tema.

Agora, sem dúvida, o legado da lavagem das mãos – aliás, muito saudável – ficará. Mas daí a decretar que vamos migrar brutalmente para o trabalho em home office, tem uma distância razoável, principalmente num país de cultura de contato, como o nosso. 

  1. SERÁ O FIM DOS RESTAURANTES: AS PESSOAS SÓ VÃO SE ALIMENTAR EM CASA

Este é um dos meus preferidos. Posso dizer que isso certamente não acontecerá. Quer seja pelo lado da experiência – encontrar os amigos ou a família para um happy hour, uma pizza ou um almoço de domingo – será sempre uma experiência social que desde a pré-história, em torno da fogueira, a humanidade pratica. Quer seja pela necessidade, já que a urbanização fez com que não tenhamos como negar a praticidade dos restaurantes executivos, aonde nossos colaboradores se alimentaram em 20 ou 30 minutos com qualidade e preço competitivo.

Logo, poderão e deverão haver ajustes em alguns modelos, como o serviço a quilo. Mas não acho razoável prever o fim desta atividade tão relevante no Brasil e no mundo.

  1. O E-COMMERCE VAI DOMINAR O VAREJO TRADICIONAL

Sim, haverá um crescimento da atividade, mas não de maneira a dominar a experiência de compra como um todo. Existem ainda grandes limitações no nosso país, como o fato das pessoas viverem em condomínios fechados, com muita barreira para os entregadores em função da violência, por exemplo.

Além disso, os problemas nas entregas – produtos vencidos ou próximo do vencimento, data da entrega errada, não conformidades em geral, etc. – fazem com que a evolução do canal seja mais lenta.

Claro, com o varejo não essencial fechado, ficou fácil, mas com o retorno, duvido muito que a “disputa” entre os canais não dure mais alguns anos ou décadas.

  1. AS EMPRESAS E SUAS MARCAS SERÃO SOCIALMENTE RESPONSÁVEIS

Aqui também temos ares infantis nas análises. Enquanto nos EUA o presidente Trump fala sem qualquer problema do suporte à pesquisa em empresas privadas para a produção de vacinas e medicamentos, inclusive citando as empresas diretamente, aqui no Brasil temos as empresas fazendo propaganda de ações sociais de maneira quase que benevolente.

Vejamos: não há empresa no capitalismo que não ligue para lucro, este é o objetivo empresarial de qualquer um. Em nossa sociedade temos vergonha de falar disso. Mesmo o tripé da sustentabilidade, depende do lucro. Logo, empresas ajudarem a manter o mercado aonde obtém o lucro deveria ser mais explícito e não caridade. Mas, importante notar que o desenvolvimento social é efeito das empresas, não objetivo único. Isso precisa ser enfocado por associações de empresas e não por marcas individuais. Sinceramente, não vejo qualquer mudança neste campo, as coisas vão continuar evoluindo lentamente, como antes da pandemia.

  1. OS POLÍTICOS ESTARÃO MAIS PREOCUPADOS COM O POVO

Esta é divertida. Claro, existem excelentes discursos, mas convenhamos, os que estão na vida pública há 20, 30 anos e sempre foram pragmáticos no combate à pobreza, na melhoria de condições básicas de saneamento, de acesso à água e luz, e de melhoria da educação básica, de repente, virarão heróis da transformação social?

Quem acreditar nesta, acredita na princesa que transforma sapos em príncipes com um beijo. A fábula é mais bonita que a vida real!

Previsão: alguns políticos poderão ter um pouco mais de sensibilidade, mas regra geral, não haverá grandes avanços, seguiremos na evolução lenta e gradual da nossa sociedade. E, claro, da nossa democracia.

Vamos ver pós pandemia se estas análises se confirmam.

Boa quarentena para todos.

 

Roberto Denuzzo
Sócio-diretor da RDC Consultoria Empresarial