Informações para Reflexões pela Cadeia Produtiva da Carcinicultura Brasileira

Por: Itamar Rocha

Embora o camarão marinho cultivado do Brasil, nos últimos 15 anos, inexplicavelmente, tenha perdido um mar de oportunidades econômicas-financeiras, notadamente quando se considera que, além do destacado potencial natural, o mesmo já ocupou posição de destaque no cenário internacional, tanto na liderança mundial de produtividade (6.083 kg/ha/2003) como nas importações de camarão pequeno-médio (51-60, 61-70 e 71-up) dos EUA (2003) e de camarão tropical da União Europeia (2004).

Por isso, a despeito de todos os percalços confrontados pelo setor ao longo dos últimos 17 (dezessete) anos, continuamos com nossa profissão de fé, que se houver a necessária priorização nos investimentos para a melhoria da genética dos plantéis e das pós-larvas, a utilização de ingredientes alternativos à farinha de peixes, associado a plena adoção das BPMs e Medidas de Biossegurança e, especialmente, o necessário retorno das exportações, claro, com união e mobilização de toda cadeia produtiva, o camarão cultivado do Brasil poderá voltar a ocupar um papel de destaque no tocante à produção e exportações mundiais de camarão marinho cultivado.

Nesse contexto, para um melhor entendimento dos equívocos e da ausência de um efetivo apoio governamental ao setor carcinicultor brasileiro, se apresenta a seguir, uma breve análise do panorama atual e das expectativas de crescimento, da produção e das exportações mundiais do camarão marinho cultivado, no curto e médio prazos, com participação quase que absoluta do camarão branco, “Litopenaeus vannamei”, oriundo do Oceano Pacífico e introduzido comercialmente no Brasil, em meados da década de 80, enquanto que na Ásia, o mesmo só adentrou à partir de 1999, mas que atualmente, domina a produção daquele Continente e do Mundo.

Inclusive, na análise das estatísticas sobre os seus principais produtores / exportadores e importadores, com um horizonte temporal, até o ano de 2025, merece se ressaltar, embora com pesar e inconformismo, o fato do camarão cultivado do Brasil, com todas suas vantagens comparativas e competitivas, mesmo diante das projeções de uma demanda mundial reprimida, já para o final de 2021, está tão desacreditado, que não está sendo considerado, quer seja no contexto da produção ou, das exportações setorial.

Na verdade, quando se fala dos principais produtores mundiais de camarão marinho cultivado, o que chama a atenção, aliás de forma expressiva, é o fato de que, dentre os líderes da sua produção e exportações, o Equador (256.370 km2), mesmo diante dos desafios da “Covid-19”, se destacou de forma expressiva em 2020, pois explorando uma área de 250.000 hectares com viveiros de camarão, produziu 736.000 t e exportou um total de 677.000 t / US$ 3,611 bilhões.

Da mesma forma, a Índia (3.287.000 km2), explorando uma área de cerca de 150.000 hectares de viveiros, embora venha apresentando um crescimento sustentável desde 2010 e, tenha se destacado como o maior produtor e maior exportador mundial de camarão marinho cultivado em 2019, teve sua produção e exportações, reduzidas para 570.000 t e 550.000 t / US$ 5,6 bilhões, respectivamente, em 2020, representando uma queda de 28% em relação a produção de 2019 (770.000 t).

Por outro lado, o Vietnã (331.114 km2), que apresentou um crescimento anual, entre 8% à 10%, na última década, resultado de uma constante evolução de uma tecnologia, que vem transformando sua capacidade de carga e aumentando a eficiência da sua indústria de carcinicultura, atingiu uma produção de 465.000 toneladas em 2020.

Além desses, a Indonésia (1.905.000 km2), contando com uma área explorada de 400.000 hectares de viveiros, produziu (285.000 t) e exportou (160.000 t / US$ 1,6 bilhão) em 2020, mas como a mesma é detentora de um vastíssimo potencial exploratório, vem sendo vista como uma das alternativas para o aumento e atendimento da crescente demanda mundial por camarão, pelo que o país planeja incrementar sua produção, nos próximos 3 (três) anos, em até 250% do volume atual.

Já com relação aos principais mercados importadores mundiais de camarão marinho cultivado, além dos tradicionais: UE, USA, China, Japão e Coreia do Sul, também vem se destacando, os Mercados Emergentes, sobre os quais se comenta adiante.

Primeiramente trataremos do cenário das importações de camarão marinho pela Europa, que em realidade, não é otimista, tendo presente que as suas importações em 2020 (788.709 t), foram apenas 5,3 % maiores que as de 2012 (749.840 t) e, mesmo excluindo 2020, o crescimento entre 2012-2019, apresentou um CAGR de apenas 1,1%.

No entanto, o segundo lugar, as importações de camarão pelos EUA, graças à popularidade do camarão nos seus múltiplos serviços de alimentação, tem apresentado um cenário bem otimista, com uma tendência crescente de aumento do seu consumo, haja visto que em 2020, apesar dos efeitos negativos da covid-19, o país importou 747.241 t de camarão, comparado com 700.789 t (2019), um crescimento de 6,63 % em volume e 7% em valor, o que leva a prever, que as importações de camarão sem cabeça pelos EUA, ultrapassarão 1.000.000 t até 2023.

Nesse mesmo passo, a China, que por muito tempo se destacou como maior produtora e grande exportadora de camarão marinho cultivado, vem-se constituindo a terceira força das importações globais de camarão, cuja importância está relacionada ao fato de que, entre 2012-2019, o país respondeu por 70-75% do crescimento absoluto das importações setorial, passando de 48.000 t (2012) para cerca de 800.000 t (2019) e, mesmo diante da covid-19, suas projeções apontam para uma meta de importações de 1.000.000 de toneladas em 2023.

Além desses tradicionais mercados, na análise das importações de camarão pelo Japão, ficou claro o seu declínio ao longo dos últimos 10 anos, com uma redução de 24%, atingiu 210.105 t em 2020. No entanto, libra por libra, suas importações de camarão estão entre as de maior valor do mundo, o que significa que suas contrações, tem um grande impacto sobre os fornecedores do Japão, especialmente para o Vietnã e a Tailândia.

Por outro lado, as importações de camarões pelos mercados emergentes tem de certa forma, compensado essa continuada redução das importações japonesas, basta ver que entre 2012- 2020, as importações de países fora da UE, EUA, China, Japão e Coreia do Sul, cresceram (78%), passando de 338.060 t (2012) para 600.800 t (2020), ou seja, um CAGR de 13%, o que também coloca esses mercados emergentes, no caminho de atingir 1,0 milhão de toneladas de importações de camarões até 2025.

Diante do exposto, fica patente que se o Brasil, adotar as medidas de apoio setorial preconizadas pela ABCC, desenvolvendo as ações para atração de investidores e de tecnologia para a exploração do seu invejável potencial logístico – operacional para a produção do camarão marinho cultivado, que atualmente, não está sendo explorado, nem no mínimo das suas possibilidades, poderá num espaço de 5-7 anos, ocupar posição de destaque no tocante às suas produções e exportações mundiais.

Nesse contexto, não podemos deixar de lembrar aos mais jovens, que da mesma forma que a carcinicultura brasileira cresceu (2.405,3%) na produção de camarão marinho cultivado, entre 1997 (3.600 t) e 2003 (90.190 t), bem como, (14.513,8%), nas suas exportações, entre 1998 (400 t / US$ 2,8 milhões) e 2003 (58.455 t / US$ 226 milhões), se forem disponibilizadas as mesmas condições de financiamentos: investimentos, custeio, processamento e estoque do produto acabado, bem como, adotado a integração com empresas-âncoras, o setor poderá voltar a crescer, num patamar até mesmo superior.

Notadamente, quando se olha para o futuro e, considera-se que as importações da China poderão retornar ao patamar de 2012-2019, o que exigirá um volume de camarão importado, da ordem de 1,4 milhão (T) em 2022, podendo até mesmo, atingir 2 milhões de toneladas em 2023.

Da mesma forma, quando se tem presente que a Índia possui um gigantesco mercado doméstico, que embora até o momento tenha sido inexplorado, representa um potencial de demanda superior a 1,0 (hum) milhão de toneladas /ano.

Portanto, as oportunidades para o camarão brasileiro, estão postas, pelo que caberá ao setor, através das suas lideranças, viabilizar as parcerias e os apoios necessários para executar as ações requeridas.

Sr. Itamar Rocha é presidente da Associação Brasileira de Criadores de Camarão (ABCC) 

Artigo originalmente publicado na Revista da ABCC, edição de junho de 2021