E DEPOIS QUE A TEMPESTADE PASSAR?

Por: Fabio Matuoka Mizumoto

O mundo não será mais o mesmo. Estamos nos surpreendendo com a nossa capacidade de colaboração e de trabalhos à distância. Certamente, estes aprendizados ficarão como uma herança incorporada às nossas rotinas e aos nossos hábitos. O covid-19 tem sido o maior agente de mudança nas organizações, nas famílias, nas instituições de ensino, nas relações comerciais e de consumo. Sem dúvidas, tem sido uma experiência forçada que forjaram as mudanças que listamos a seguir.

Questionaremos as nossas relações. Passaremos a nos questionar se podemos substituir as reuniões presenciais por interações virtuais objetivas e estruturadas em torno de decisões. Preciso ir à escola sendo que o conteúdo apoiado por metodologias à distância dispensa deslocamentos e exposição a tantos outros riscos? Até que ponto vale manter a rotina de visitas comerciais sendo que podemos tomar decisões ao alcance de um click? Ao invés de ir ao supermercado ou à farmácia, por que não continuar comprando pelo aplicativo ou website?

Seremos mais produtivos. Quem trabalha à distância usa melhor o tempo e, além disto, trabalha mais. Por exemplo, 60 minutos de aula online equivale a 90 minutos de aula presencial. Como explicar um ganho em 50% de produtividade em uma aula? Bem, o instrutor tem que acelerar o ritmo para tracionar a atenção dos alunos para evitar que eles se dispersem com o “alt tab” (comando que muda as janelas do ambiente de trabalho). Por outro lado, isto demanda ainda mais disciplina do aluno que encontra na tela do seu dispositivo muitas outras distrações do que em ambiente de aula presencial. E o instrutor pode convenientemente atender a diversas turmas uma seguida da outra ou, até mesmo, conectar diferentes turmas em torno de uma única aula síncrona e/ou utilizar o material gerado por uma aula em outra. O mesmo racional vale para as reuniões de trabalho. Esqueça grandes preâmbulos ou divagações que eram respeitados no ambiente presencial porque as pessoas tinham respeito em não desviar a atenção de quem fala e ao mesmo tempo monitora a reação dos ouvintes.

Os modelos de negócios serão reconfigurados. Se já vínhamos observando o crescimento das fintechs (novas empresas de tecnologia aplicadas ao setor financeiro) suportado pelos clientes que valorizam a interação à distância, o covid-19 tem forçado a experiência de clientes dos bancos tradicionais a não frequentar as agências. De uma hora para a outra, as milhares de agências espalhadas pelo território nacional dos grandes bancos deixaram de ser um ativo relevante para se tornar um passivo relevante. Como justificar tamanho custo fixo? Como rentabilizar estas agências com outros serviços que sejam distintos dos oferecidos pelas fintechs? Até mesmo o financiamento de atividades que demandam documentações está passando por reconfigurações tais como o cartório virtual e a CPR online (cédula de produto rural, um instrumento importante para o financiamento no agronegócio)

As famílias passaram a se reconectar. Antes do covid-19 era comum a família se reunir para uma refeição cada um com o seu celular, as crianças com o tablet e assim a tecnologia estava a serviço de manter separados aqueles que pareciam unidos. Mas depois do covid-19 a tecnologia passou a reconectar as famílias ao permitir a distância física dos mais susceptíveis à doença mas com proximidade afetiva por meio de interações virtuais. Os pais retomaram as brincadeiras de antigamente com seus filhos, os netos passaram a ouvir histórias de família transmitidas online diretamente da casa dos avôs no período de isolamento. Isto tudo tem permitido um outro entendimento sobre o que realmente importa e esta nova priorização das famílias impactará as suas escolhas na direção do mais simples e essencial.

E depois que a tempestade passar teremos um período de calmaria. Desta vez, para acomodar as mudanças provocadas pelo covid-19. Será tempo para questionar as nossas relações, para ganharmos em produtividade, para rever os modelos de negócios e nos reconectarmos com aquilo que verdadeiramente importa.

 

 

Fabio Matuoka Mizumoto
Professor da FGV-EESP
Sócio da consultoria Markestrat