Competitividade do cacau brasileiro passa pela autossuficiência

Por: Anna Paula Losi

Desafio para os próximos anos é ampliar a produção para atender à demanda da indústria nacional

A safra 2020/2021 de cacau está se aproximando do fim, com bons preços para os produtores brasileiros. A menor oferta, somada ao aumento da demanda, foi um dos fatores que contribuiu para que as cotações do cacau fossem valorizadas. No entanto, uma forte e inesperada queda na produção da safra completa – incluindo a principal e a temporã, que deve fechar o período com 162,7 mil toneladas, 17,4% a menos que as 197,1 mil toneladas da temporada 19/20, somada à grande variação cambial e ao alto custo de produção, acabou por neutralizar boa parte dos efeitos benéficos da alta no mercado. Essa movimentação mercadológica, que leva em conta muitos outros fatores além da relação oferta x demanda, também nos lembra que o Brasil precisa aumentar a sua competitividade e sustentabilidade nos próximos anos, o que passa necessariamente pelo aumento da produção de amêndoas de cacau, preferencialmente aumentando a produtividade das lavouras já existentes, de modo a retomar a autossuficiência para atender o mercado nacional e quem sabe até mesmo voltar a exportar amêndoas de cacau.

Este é, aliás, o principal desafio do setor no Brasil, desde que a vassoura-de-bruxa chegou às plantações baianas no final dos anos 80 e devastou as áreas produtoras de cacau. A queda brusca na produção de amêndoas fez com que o Brasil passasse de maior produtor mundial de amêndoas para o sétimo lugar, atrás de países como Gana e Costa do Marfim. As indústrias brasileiras processam entre 225 e 235 mil toneladas de cacau por ano, volume que responde por algo entre 75 e 80% da sua capacidade instalada, patamar de utilização necessário para manter seus custos de produção em níveis economicamente adequados. A média das últimas cinco safras brasileiras não passou de 176 mil toneladas, claramente aquém do volume total processado pela indústria, fazendo com que um volume adicional seja adquirido no mercado externo, via importação. O volume processado anualmente é destinado não só a atender o mercado doméstico, mas também a clientes internacionais, especialmente Argentina e Estados Unidos, principais compradores dos derivados brasileiros.

Para manter a sua competitividade, a indústria brasileira faz o uso de um mecanismo bastante comum quando se trata de comércio internacional, o drawback. A modalidade permite que qualquer indústria brasileira, de qualquer segmento econômico, importe insumos com a suspensão de tributos, desde que seja para a utilização no processo produtivo com agregação de valor e obrigatoriamente exporte os produtos resultantes desse processo. O drawback permite que o custo das importações das indústrias locais se equipare ao custo dos insumos das fábricas em outros países, assegurando assim a sua competitividade nos mercados externos. No entanto, como as importações precisam ser programadas com meses de antecedência, a definição das quantidades encomendadas se baseia em previsões da produção nacional, que, às vezes, podem ser maiores ou menores do que a produção efetiva.

O caminho para reduzir a dependência brasileira da importação de amêndoas passa necessariamente pelo fomento da produção nacional. Desde que a vassoura-de-bruxa se espalhou, os produtores baianos vêm lutando para retomar a produtividade de outrora, investindo em técnicas de manejo como o adensamento e a renovação de plantas. Apesar dos esforços, uma série de eventos climáticos desfavoráveis vem prejudicando a retomada. Como resultado, a Bahia que em tempos áureos chegou a produzir em média 339 mil toneladas de amêndoas por safra, entre 1985 e 1990 deve encerrar a safra 20/21 com apenas 93 mil toneladas produzidas, uma queda de 72,5%. Levando em conta que a produção média das últimas cinco safras baianas ficou em 108 mil toneladas, o equivalente a 31,9% da média das cinco safras do auge da produção, é possível perceber o tamanho do desafio. O Pará também vem investindo no aumento da produção, cuja média dos últimos cinco anos ficou em 59 mil toneladas. Ainda assim, é preciso que a produção em ambos os estados Pará e Bahia e, porque não dizer, em novas fronteiras agrícolas, registre considerável crescimento nos próximos anos, a fim de recuperar a produção. E isso passa necessariamente por investimentos em manejo, assistência técnica, organização dos produtores e melhora da qualidade, elementos essenciais para que o Brasil fortaleça a cacauicultura, tenha competitividade e volte a figurar entre os principais produtores mundiais.

 

Anna Paula Losi
Diretora-executiva da Associação Nacional das Indústrias Processadoras de Cacau (AIPC)
A autora usou como base os dados fornecidos pela TH Consultoria