A CRISE COMO OPORTUNIDADE DE SE REINVENTAR

Por: Ricardo Chueiri de Souza

A crise gerada pelo Covid-19 está aí e vamos precisar nos adaptar rapidamente a uma nova realidade. Já sabemos que entraremos em recessão este ano. O mundo inteiro deve encolher 3% em 2020.

A Europa talvez já tenha passado pelo pior, mas no Brasil e nos Estados Unidos certamente, ainda teremos aumento do número de casos. Teremos recessões severas em diversas partes do mundo com aumento forte do desemprego, quebra de empresas mais frágeis e redução significativa na renda disponível.

Aqui no Brasil, a recuperação econômica, tão esperada, foi adiada. Teremos contração de nossa economia, com algo estimado em 5% de queda do PIB em 2020. E ainda por cima, não sabemos como será o impacto na curva de contágio quando começarmos a reduzir o isolamento social.

Dito isso, como as empresas devem se preparar?

A primeira etapa, sem dúvida, é mapear a situação competitiva da empresa nesta nova realidade. Simular cenários levando em consideração todos os aspectos da crise, não só os negativos, mas também as oportunidades que possam surgir. Em seguida, montar um bom planejamento, fazendo as adaptações e mudanças necessárias.

Os aspectos mais negativos da crise serão, uma sociedade com menor predisposição de consumo, racionalizando ao máximo suas compras, cortando os gastos supérfluos, saindo menos de casa, deixando de viajar por um tempo, e de frequentar lugares públicos com aglomeração de pessoas. Ao mesmo tempo, o consumidor voltará mais consciente da quarentena, dando mais valor ao que é essencial e às relações humanas. Haverá com certeza, mais solidariedade entre as pessoas, e por que não, uma maior valorização de produtos Nacionais, com objetivo de ajudar as pequenas e médias empresas. Outro aspecto importante é a consolidação dos hábitos de consumo on-line, inclusive por aqueles que não tinham tanta familiaridade, como os mais velhos e as classes sociais mais baixas.

Nas empresas, crescerá a importância de se reforçar a cultura e o propósito, seja para engajamento interno dos colaboradores, seja para gerar maior relevância no mercado. Outro aspecto importante é a digitalização das empresas. Muitos negócios foram forçados a fazer a sua Transformação Digital para capturar o momento do consumidor on-line, dando oportunidade para as empresas automatizarem alguns de seus processos, testarem novos modelos, além de trabalharem mais remotamente, com equipes mais horizontais e menos hierárquicas. O home office e as reuniões on-line se consolidaram como ferramentas eficazes e produtivas.

Desta forma, aqui vão alguns pontos importantes no planejamento das empresas:

  1. Adaptem o seu portfólio de marcas e de produtos para o momento de crise. Geralmente, as marcas de melhor custo x benefício, não necessariamente as líderes, tendem a crescer participação na crise. Vai haver uma necessidade ainda maior de se justificar o preço premium de determinadas marcas em relação a marcas locais mais baratas, que operam com margens menores. Haverá necessidade de se reforçar o mix de ofertas, com maior uso de packs promocionais, embalagens maiores, com evidente benefício de desconto, e/ou embalagens menores, visando menor desembolso.
  1. Ajuste na precificação dos produtos. Haverá uma pressão muito forte de varejistas em reduzir preços e aumentar a pressão promocional. Mais do que nunca, o momento exigirá parceria entre Indústria e Varejo, para atravessarem este momento com ações bem planejadas, visando causar o menor dano possível à cadeia de valor, às categorias e na percepção geral das marcas.
  1. Ajustem suas margens para maximizar eficiência operacional. Durante a quarentena, a maioria buscou alternativas para preservar o caixa, com análises profundas dos seus custos diretos e indiretos. As empresas deverão continuar a fazer este exercício, buscando novos fornecedores, pesquisando novas formulações, novas embalagens, revendo o seu custo de servir, de modo a otimizar a sua margem operacional.
  1. Estou bem posicionado em todos os canais relevantes para o meu negócio? É bem provável que os “Atacarejos”, pelos menores preços, e os supermercados de vizinhança e lojas de conveniência, pelos menores deslocamentos, ganhem maior relevância. As empresas precisam estar preparadas para atender estes canais. E o canal on-line deverá se manter aquecido, pelo permanente risco de contaminação pós-quarentena.
  1. O Food Service deverá continuar sofrendo após a retomada. Além da provável redução de gastos em alimentação fora do lar e redução de viagens, estes ambientes continuarão sendo mais controlados, com regras sanitárias mais rígidas, tais como distanciamento de mesas, limitação de público, proibição de buffets de self-service, uso de máscaras. As empresas deste setor terão de se reinventar, criando novos modelos de negócio para atingir os seus consumidores.
  1. Em termos de Comunicação, as empresas precisarão analisar com cuidado como irão se posicionar daqui para frente. As pessoas estarão mais vulneráveis, precisando contar mais umas com as outras, rejeitando falsidade e exageros. A população terá um olhar mais empático para empresas e marcas que estiverem mais engajadas neste novo ambiente. Importante é ser o mais transparente possível, refletindo sempre o propósito da empresa (qual é o meu retorno para a sociedade?). Adotar um tom menos formal, e mais humano.
  1. Os colaboradores voltarão apreensivos e mais vulneráveis da quarentena. Muitos terão de voltar ao trabalho, deixando em casa filhos (não sabemos se as escolas vão reabrir) ou pais precisando de assistência. A maioria das empresas deverá avaliar, se possível, a continuidade de jornadas flexíveis e práticas de home office, confiando mais nas pessoas, já que são alternativas mais sustentáveis e até mais produtivas de se trabalhar. Importante é estabelecer um ambiente de confiança, motivação e produtividade.

Por fim, eu entendo que as crises são necessárias e passageiras. São nestes momentos cruciais, que os líderes e as empresas se forçam a repensar os seus negócios, a se reinventar, aprimorando e evoluindo nas suas práticas, e saindo delas ainda mais fortalecidos.

Boa retomada!

 

Ricardo Chueiri de Souza
Executivo de Marketing/ Vendas e Consultor de Empresas
ricardochsouza@gmail.com